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Archive for the ‘Cinema’ Category

A frase título deste post era habitualmente dita por meu avô, Belizário Rodrigues da Cunha, fazendeiro de Minas Gerais.

Neste domingo, 19 de maio, dia de mais uma Virada Cultural em São Paulo, pudemos comprovar a verdade da frase citada pelo fazendeiro de Araguari.

Em um evento organizado pela Casa Guilherme de Almeida, MIS (Museu da Imagem e do Som) e com apoio da Cinemateca Brasileira foi feita uma homenagem a José Medina, comemorando seus 120 anos de nascimento.

A projeção do filme Fragmentos da Vida foi belamente acompanhada ao piano por Anna Claudia Agazzi, bisneta de Gilberto Rossi, parceiro de Medina em seus trabalhos cinematográficos. A música? A partitura original do filme e algumas outras peças especialmente selecionadas pela pianista. Após a projeção, subiram ao palco Donny Correia (cineasta, representante- da Casa Guilherme de Almeida), Anna Claudia Agazzi e Vera da Cunha Pasqualin (bisneta de José Medina). Os três falaram sobre o filme, a criatividade e a beleza, o ineditismo e as soluções criadas por Medina e Rossi.

Duas bisnetas deixando registrado o orgulho e a influência dos bisavôs em suas vidas e a repercussão nos seus trabalhos profissionais.

O diálogo incluiu a plateia que também falou sobre a memória e sobre São Paulo do início do século XX.

José Medina se perpetua por sua obra e também pelo amor de seus descendentes.

Margarida M Cunha Pasqualin

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Anna Claudia Agazzi, Donny Correia e Vera da Cunha Pasqualin

 

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As famílias Medina e Rossi.

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Paralelos

Março é o mês da maior premiação internacional do cinema. Neste ano de 2012, o vencedor do Oscar foi “O Artista”, filme mudo francês, em preto e branco.

Achei muito interessante que a premiação tenha sido para um filme mudo, em preto e branco, na contramão de filmes em 3D e de grandes efeitos especiais. Para melhor transmitir as emoções, a música e a interpretação dos artistas são primorosas.

 “O Artista” recebeu os prêmios de melhor filme, melhor diretor (Michael Hazanavicius), melhor ator (Jean Dujardin), trilha sonora e figurino. A atriz Bérénice Bejo recebeu indicação para o prêmio de atriz coadjuvante.

Enquanto assistia ao filme, fiz um exercício de comparação entre este moderno filme mudo e a obra de José Medina, mestre dos filmes silenciosos. Nos filmes de Medina, a maquiagem era mais pesada, em contraponto à naturalidade da película francesa. Nas duas obras, a música desempenha um papel de grande importância como canalizadora de emoções.

Em ambos os roteiros observa-se uma mensagem como tema principal. Aliás, para Medina, toda obra deveria transmitir uma mensagem educativa.

Medina também parou de produzir seus filmes no início da era do filme falado. Chaplin, outro grande mestre do cinema mudo, precisou de 10 anos para aceitar essa nova linguagem cinematográfica.

No roteiro de “O Artista”, George Valentin, personagem vivido por Jean Dujardin, ao fazer seu próprio filme, revoltado com as “modernidades”, também acumulou diferentes funções, tal como fazia Medina, que dirigia, escrevia os roteiros, atuava e ensaiava os atores. A grande diferença é que nesta história, George Valentin não obteve o sucesso alcançado por Medina. A modernidade assustou G. Valentin, mas com a ajuda de Peppy Miller (Bérénice Bejo), o ator conseguiu encontrar outra forma de expressão artística, o musical.

Medina também fez uma mudança de curso, na chegada do filme falado, passando a escrever crônicas para jornais, a criar e atuar em rádio.

Depois de pensar nas maravilhas do filme mudo, imaginem se, inadvertidamente, uma estação de TV contratasse leitores labiais para saber o que os atores falavam… Seria o fim de todo romantismo, de toda emoção, da beleza do filme mudo.

Margarida M. Cunha Pasqualin

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Uma alma elegante

Um depoimento

Há poucos meses, em 11 de agosto, vivemos as alegrias do encontro com os descendentes de Gilberto Rossi. O sentido abraço de Liliana e Araceli, que não haviam se encontrado nos últimos 60 anos, aproximadamente, foi o gesto que deu passagem à forte emoção que todos partilharam naquela tarde. Assistir aos filmes de meu avô, agora emoldurados pela bela música de Anna Claudia Agazzi, bisneta do Rossi, trouxe novas sensações, novas ligações. Aquela moça ao piano ali no palco onde até então eu só vira a tela, representava algo um pouco maior. A memória do meu querido avô adquiriu outra dimensão. Durante aqueles poucos minutos da apresentação, fui obrigado a rever essa memória. Uma imagem que era apenas um nome – o Rossi – assumiu contornos de realidade. Havia filhos, netos, bisnetos e tataranetos dele também. Viramos amigos de infância de imediato. Vamos nos ver com frequência? Provavelmente não. Mas vamos saber que existem pessoas que conosco compartilham a memória de nossos maiores com o mesmo orgulho, o mesmo amor.

Mas a coisa não terminou por aí. O incansável trabalho de Vera e Margarida resgatou mais uma ligação de José Medina: o grande poeta paulista Guilherme de Almeida. Entre seus trabalhos literários, Guilherme de Almeida escrevia a coluna Cinematographo no jornal O Estado de São Paulo, com comentários de cinema. Em uma de suas colunas, o Poeta comentou a obra de seu amigo Cineasta em termos altamente elogiosos. Vera e Margarida foram atrás da informação. Visitaram e estabeleceram contato com o pessoal da Casa Guilherme de Almeida.

Ontem à tarde, minha mãe e minha tia receberam a visita de Alexandra Rocha, educadora, e Donny Correia, professor de cinema, ambos da Casa Guilherme de Almeida. Novo impacto. Desta vez não eram os netos de alguém ligado ao meu avô. O interesse de Alexandra e Donny ao conversar com Araceli e Esperança não era atávico. Era cultural. Vi minha mãe e minha tia falando do querido pai e os representantes do museu ouvindo sobre o respeitado Cineasta. Foi incrível. Mais de 30 anos depois de sua morte, ele continua me surpreendendo, me ensinando. Vimos os filmes “Exemplo Regenerador” e “Fragmentos da Vida” pontuados com os comentários entusiasmados de Alexandra e Donny, que assistiam pela primeira vez. Eles me mostraram um novo Medina, aquele que recebeu prêmios por suas realizações no Brasil e no exterior. Um avô que me vejo obrigado a dividir com o mundo.

Depois dos filmes, Araceli e Esperança abriram o baú de memórias – as duas têm mais de 90 anos – e nos encantaram com “causos” e informações. Margarida, Vera e eu ficamos comentando sobre a delícia de pessoa que foi Medina em família. Ao final, já prontos para ir embora, Alexandra nos presenteou com mais uma faceta de Medina: “por tudo que vimos, sabemos agora que ele era um homem que tinha uma alma elegante”.

Antonio Ernesto Pasqualin

Araceli, Donny e Alexandra

Esperança

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No dia primeiro de janeiro de 1922, a Rossi Film fez a 1ª apresentação do Rossi Jornal, na inauguração do Cine República, antes da exibição do filme “Do Rio a São Paulo para Casar”. O plano inicial era produzir números mensais de um jornal de atualidades.

Washington Luiz, Presidente do Estado de São Paulo, presente na inauguração do cinema, achando este jornal um ótimo veículo de divulgação, contratou a dupla Rossi e Medina para fazer números quinzenais, subvencionando-os. Desta forma eles passaram a fazer a cobertura de atos oficiais, incluindo-se aí os festejos comemorativos do 1º Centenário da Independência do Brasil. Fizeram, dentre outras, reportagens sobre a inauguração da estátua de Olavo Bilac (na Av. Paulista e que está atualmente na Praça José Moreno), do busto de Giuseppe Verdi (na Praça do Correio e que está atualmente no Anhangabaú), da chegada a São Paulo dos aviadores portugueses Sacadura Cabral e Gago Coutinho e da inauguração da estrada São Paulo – São Roque.

No ano de sua criação, o Rossi Jornal fez a cobertura da Semana de Arte Moderna (apenas de eventos diurnos porque não havia refletores para gravação noturna), mas não chegou a exibi-la nas telas por motivos políticos (lembramos que recebiam subvenção do Estado).

O último número do Rossi Jornal foi em 5 de julho de 1924, época em que estourou a Revolução Paulista, também chamada de Revolução Esquecida, a 2ª Revolta Tenentista. A cidade ficou ocupada por 23 dias. Nesta ocasião, o Palácio dos Campos Elíseos, sede do governo paulista, chegou a ser bombardeado.

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Este filme de longa-metragem (cinco rolos com cerca de 200 a 250 metros cada um) foi feito com os recursos obtidos com o lucro do filme “Exemplo Regenerador”. “Perversidade” custou 8,5 contos de réis e rendeu o dobro. Em apenas uma semana foram feitos o roteiro e a filmagem.

 

Ficha técnica:

(1920) – Filme silencioso – original não encontrado

Argumento: José Medina

Roteiro: José Medina

Diretor: José Medina

Fotografia: Gilberto Rossi

 

O elenco desta película também era formado por artistas amadores, mas como novidade, já contava com atores profissionais. José Medina interpretou o personagem principal, ao lado de Inocência Collado, Regina Fuína, Maria Fuína, Carlos Ferreira, José Vassalo Jr., Francisco Madrigano e Nicola Tataglione.

 

Sinopse

“… havia um casal modesto, mas muito feliz; o marido era guarda-livros num escritório e a mulher cuidava da casa. Um dia, o patrão do marido fica conhecendo a mulher, e se apaixona por ela; faz-lhe propostas maliciosas, mas é repelido. Para vingar-se, engendra um plano que ao mesmo tempo o livraria do marido e deixaria a mulher à sua mercê; entrega ao guarda-livros uma chave do cofre do escritório, retira o dinheiro do cofre (numa hora em que pensava não haver ninguém presente) e no dia seguinte acusa o marido de ter roubado o dinheiro. O guarda-livros é preso e a sua fotografia sai nos jornais. Uma menina vê a fotografia e vai à polícia, dizendo que aquele homem não era o ladrão. A menina conta, então, que havia presenciado o roubo porque se escondera no escritório para fugir de um bêbado que a perseguia na rua. Depois reconhece o patrão como sendo o verdadeiro ladrão. O patrão é preso e condenado e o guarda-livros volta para sua casa e para sua mulher”. (Resumo do filme segundo depoimento de José Medina, in MRG/CCP). Informações obtidas no site da Cinemateca.

 

Nota-se neste longa-metragem que já havia o que chamamos hoje de “merchandising”. Em uma cena no escritório, aparecem diversos datilógrafos usando máquinas de escrever “Royal”, que pagou para que seus produtos aparecessem no filme.

Com os recursos e sucesso obtidos com este longa-metragem, Medina e Rossi conseguiram criar um jornal cinematográfico, o Rossi Atualidades.

Medina comentou que o cinema foi lucrativo desde o início, por ter sempre usado muita parcimônia, planejamento e critério. “Estou convencido, agora, de que nunca tivemos prejuízo graças a esse cuidado de orçar e planejar”

Na época em que Medina começou seu trabalho cinematográfico, a exibição de filmes nacionais não era uma obrigatoriedade e os exibidores resistiam à apresentação de filmes aqui produzidos. Mesmo assim, Medina e Rossi sempre tiveram seus trabalhos aceitos pelos exibidores.

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“Exemplo Regenerador”

Em maio de 1972, em meio às comemorações do cinquentenário da Semana de Arte Moderna, Adhemar Carvalhaes, Coordenador do Laboratório de Cinema do Museu de Arte de São Paulo, convidou José Medina para proferir uma palestra, no MASP, sobre o cinema brasileiro no ano de 1922.

Reproduzimos abaixo um trecho dessa palestra onde se vê o pioneirismo de Medina, não apenas nos movimentos de câmera e argumentos, mas também no seu foco e capacidade de planejamento, articulação e perseverança.

José Medina aborda o momento importantíssimo de sua carreira como cineasta ao conhecer Gilberto Rossi, em 1918, no Rio de Janeiro. E, em suas palavras, foi assim que começou esta amizade e a parceria profissional e artística:

(…) Em meados de 1919 mudei-me para São Paulo e sem perda de tempo fui procurar o Rossi. (…) Disse ele: “Eu tenho por enquanto apenas esta câmera Erneman, uma copiadora que eu mesmo fabriquei, e esse pequeno laboratório, mas uma coisa posso garantir: Se você for capaz de fazer o roteiro, dirigir os artistas e montar o filme depois de pronto… deixe a parte técnica por minha conta”. E realmente ele chegou a fazer verdadeiros milagres com aquele paupérrimo aparelhamento.

Diante daquela explicação, de minha parte, só restava uma coisa a fazer. A título de experiência escrever um resumido argumento e o devido roteiro para proceder à filmagem. Tudo ficaria a meu cargo, porquanto o Rossi apenas manejaria a câmera e faria o serviço de laboratório. Seria o meu primeiro passo, quase no escuro. Mas estava com grande disposição de por mãos à obra.

Lembro-me perfeitamente que foi numa chuvosa sexta feira que rabisquei um argumento banal, ocupando apenas quatro personagens e calculado para três, no máximo quatro bobinas de negativos de trinta metros cada uma, pois a capacidade da velha Erneman era apenas de trinta metros.

No dia seguinte, ou seja, no sábado, pela manhã fui mostrar ao Rossi o roteiro do pequeno argumento que eu mesmo havia idealizado. Ele confessou com sinceridade que nada entendia de roteiro, mas que o achava excelente para a primeira experiência.

Era necessário improvisar um estúdio ao ar livre porque a iluminação artificial com refletores era coisa da qual nem se cogitava. Mas o Rossi, sempre bem disposto, disse-me: “Trate de arranjar os cenários e os intérpretes e deixe o resto por minha conta. Quando é que você pretende que rodemos o filme?”. Quanto antes melhor, respondi. Se fosse possível rodaríamos no dia seguinte que era domingo.

Gilberto Rossi esboçou aquele sorriso que lhe era peculiar e disse: “É disso que eu gosto. Boa disposição para fazer as coisas e nada de protelar aquilo que se tem que fazer”. Fui imediatamente tratar de arranjar os cenários e a indumentária, coisa que foi relativamente fácil porque existia naquela ocasião um estabelecimento na antiga Rua Senador Queiroz denominada Casa Teatral Valentim.

 Como eu fazia parte de um grupo dramático de amadores, também foi fácil selecionar os artistas. Artistas improvisados, porque nunca haviam enfrentado uma câmera de cinema.

Naquele mesmo sábado à noite, na minha residência procedemos a um rigoroso e prolongado ensaio. Em seguida expliquei a eles que no dia seguinte, embora fosse domingo, deviam se dirigir à Casa Teatral Valentim para escolher a indumentária. E às dez horas em ponto deviam estar em casa do Rossi para iniciar a filmagem.

 Restava saber se o Rossi havia providenciado o local para rodar as cenas interiores. No dia seguinte, domingo, logo pela manhã fui ver se estava tudo pronto para a filmagem. Quando lá cheguei, fiquei embasbacado. O Rossi havia recebido na véspera os cenários por mim encomendados na Casa Teatral e, coisa de pasmar: no pequeno quintal de sua residência, numa área de 4 x 5 metros, havia improvisado um magnífico estúdio. Havia passado a noite, ajudado pela esposa e os filhos, montando os cenários e mobiliando a cena com os próprios móveis e tapetes de sua residência.

Às dez horas já estavam presentes os intérpretes e iniciamos sem demora a filmagem das cenas internas. Eu próprio me improvisei em maquiador, iluminador e diretor. Quando terminamos de rodar as cenas interiores já era hora de almoço e todos saíram para voltar às duas horas em ponto quando rodaríamos as cenas externas.

Nesse intervalo fomos para o laboratório e foi revelado o negativo. O Rossi achou que a fotografia estava ótima, restava saber se o que estivera a meu cargo também tinha correspondido.

Às duas horas da tarde estávamos todos a postos para terminar a filmagem. Alugamos dois automóveis de praça e rumamos para a Avenida Paulista onde rodamos as cenas externas em frente ao antigo Trianon. Antes das cinco horas da tarde estávamos de volta e imediatamente foi revelado o negativo das cenas finais.

No dia seguinte, segunda feira, Gilberto Rossi que era muito madrugador, copiou todo o filme e revelou o positivo. Quando cheguei, mais ou menos 9 horas, a fita estava estendida nos varais onde se estendia a roupa. Fui informado que depois de meio dia já estaria seca para que eu fizesse a montagem e os cortes necessários.

Às três horas da tarde voltei à casa do Rossi e já encontrei o filme enrolado e pronto para ser montado. Como a metragem era muito curta, às oito horas da noite estava pronto para ser projetado num antiquado projetor que havíamos adquirido.

Durante a projeção não foi possível conter o entusiasmo do velho batalhador. Ele gritava no seu português italianado: “Isso parece um filme americano. Agora cheguei onde eu queria.” E quando a projeção terminou, ele me deu um apertado abraço. Rossi era uma criatura sensibilíssima. Percebi que quando me soltou do abraço, havia lágrimas em seus olhos.

Quanto a mim, confesso que aquilo me apanhou de surpresa. Eu não esperava por aquele resultado. Fiel ao roteiro a estória não sofria solução de continuidade. Lembro-me que naquela noite de segunda-feira não pude conciliar o sono fazendo projetos que chegavam às raias do absurdo.

No dia seguinte, terça-feira, logo pela manhã fui me encontrar com o Rossi. Ele continuava no auge do entusiasmo. Sugeriu que levássemos a fita à Empresa Serrador, que nessa ocasião estava sediada na Rua Brigadeiro Tobias. Assim, naquela mesma tarde apanhamos a lata contendo o que pretendíamos que fosse o nosso “CAPOLAVORO” e nos dirigimos para o escritório daquela empresa.

Fomos recebidos por um senhor Gadotti, um dos diretores da Empresa Serrador. Quando dissemos que queríamos mostrar o nosso filme ele foi taxativo: “Desculpem mas, absolutamente, não nos interessamos por filmes nacionais. Já estamos mais do que decepcionados com filmes brasileiros”.

A situação tornou-se desanimadora. Eu, pessoalmente tinha certeza de que iriam gostar de nosso trabalho experimental. Mas o Gadotti não dava mostras de ceder. Disposto a insistir, tive uma idéia. Pedi a ele que fizesse o favor de passar o filme, não que tivéssemos a pretensão de que fosse exibido em seu circuito de cinemas, mas apenas, para que visse e julgasse nosso trabalho. Mas ainda assim não concordou.

O psicólogo americano Edward Purinton afirma que nunca se está tão perto do sucesso, como quando se chega ao fracasso. E que, geralmente, o sucesso depende de esperar um momentinho mais. E essa teoria se confirmou. Estávamos quase desistindo de nosso intento quando providencialmente apareceu na sala em que estávamos, o famoso Francisco Serrador, de saudosa lembrança para mim. E quando se inteirou do que se estava tratando, concordou em projetar nossa fita na pequena cabina instalada nos próprios escritórios da empresa.

Quando entramos na cabina e a luz se apagou, eu estava com o coração aos saltos. Rezei, sim, confesso que rezei e pedi a Deus, que o filme agradasse. Porque aquele seria o marco inicial. O nosso ponto de partida para prosseguir tentando até estabelecer uma indústria cinematográfica real.

Eu estava consciente de que naquela época ninguém acreditava em filmes nacionais. Mas, talvez por isso mesmo eu tinha esperança que o nosso trabalho agradasse porque havia notado que era uma fita diferente das poucas nacionais que eu havia assistido.

Quando a luz acendeu, o velho Serrador olhou para mim com visível admiração, e perguntou: “Onde foi feito esse filme? Quando foi feito?” Depois de explicarmos a ele, detalhadamente como  havíamos realizado aquele pequeno trabalho, ele com certa incredulidade continuou a me encarar sem proferir mais uma palavra.

Eu estava angustiado porque não podia compreender onde é que ele queria chegar. Mas, nesse momento de expectativa, o rapaz que havia projetado o filme saiu da cabina e exclamou: “Francamente, eu não acredito que esse filme é brasileiro”.

Se os presentes viram esse filme que recentemente foi exibido, fazendo parte do cinema retrospectivo, é claro que devem tê-lo achado muito rudimentar, talvez mesmo ridículo. Mas naquela época, fins do ano de 1919, podia ser equiparado às fitas importadas. E tudo quanto estou expondo e vou continuar a expor, é a essência da verdade. E se algumas das pessoas a quem estou me referindo e outras a que vou-me referir ainda vive, apelo para seu testemunho.

Depois daquela exclamação do rapaz que projetou o nosso filme, Serrador resolveu se manifestar: “Amanhã mesmo, disse ele, vamos exibir essa fita como complemento do programa no Cinema Central. E é pena que seja tão curto, porque se tivesse maior metragem seria exibido como qualquer outro programa, e não como complemento”. E caso curioso: alguns anos depois, Julio Llorente que era diretor da Empresa Serrador aqui em São Paulo, repetiria essas mesmas palavras por ocasião do lançamento do nosso filme “Fragmentos da Vida”, no cinema Odeon.

Em vista de ter o senhor. Serrador se manifestado com tanto otimismo, prontificamo-nos a fazer uma cópia nova para sua estreia que ficaria pronta no dia seguinte. Mas ele não quis saber disso e insistiu: “Essa cópia está muito boa. Deixem a fita aqui. Depois trataremos da parte comercial”. Em seguida mandou chamar um senhor Salgado que era o gerente da empresa e ordenou: “Inclua essa fita nos anúncios dos jornais de amanhã, e mande fazer um cartaz no Cine Central”.

Na noite seguinte fomos ao Cinema Central para assistir a exibição do nosso filme ao qual eu havia dado o título de “EXEMPLO REGENERADOR”. Fomos assistir a exibição, mais com o intuito de observar qual seria a reação do público que continuava a não acreditar no cinema brasileiro. E pelos raros comentários que pudemos ouvir na saída da sessão convencemo-nos que o nosso curta-metragem não havia decepcionado os habitués daquele cinema.

De volta à casa de Rossi, em caminho ele manifestou a sua convicção de estarmos pisando em terreno firme dizendo: “Agora que estou convencido de nossa possibilidade vou mandar vir uma câmera Debry, último modelo e uma copiadora Pathe” (…)

E, desde então, a dupla Medina e Rossi brindou o cinema brasileiro com obras de qualidade.

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Hoje, dia 27 de outubro, faz 90 anos que foi lançado, nos cines Royal e Central, em São Paulo, o filme “Carlitinho”, de José Medina (27/10/1921).

Este filme, uma comédia no estilo dos filmes americanos, tinha a duração de 20 minutos. Esta obra falava de um garoto que imitava o Carlitos, de Charles Chaplin.

Ficha técnica:

Produção: Rossi Filmes

Fotografia: Gilberto Rossi

Direção: José Medina

Elenco: José Vassalo Jr (Carlitinho), Carlos Ferreira e Antonio Degani.

Paralelamente aos 90 anos de lançamento do filme Carlitinho, vemos que está acontecendo em São Paulo, no Instituto Tomie Ohtake (Av. Faria Lima, 201), desde o dia 20 de outubro, a exposição “Chaplin e sua Imagem”.

Vale a pena conhecer esta mostra, inclusive pelo interessante local onde ela está instalada.

Esta exposição já viajou por diversos países da Europa, pelos Estados Unidos, México e chegou agora a São Paulo, devendo ficar até o dia 27 de novembro de 2011.

Temos que aproveitar esta oportunidade de conhecer facetas até então inéditas de Charles Chaplin. Poderemos ver, por exemplo, que Carlitos não foi sempre aquele personagem simpático, humano e triste que tanto nos encantou. No início de sua criação, em 1914, ele tinha uma personalidade antipática, era trapaceiro e golpista. A morte simbólica de Carlitosaconteceu com o início dos filmes sonoros, no filme “O Grande Ditador”. É curioso testemunhar a evolução dos filmes de Chaplin. A partir de 1930 ele mostra uma faceta politizada, que não agrada muito ao público.

Esta mostra, muitíssimo bem instalada, apresenta mais de 200 fotografias, filmagens de bastidores e vídeos caseiros inéditos.

Chaplin, que faleceu em 1977, foi contemporâneo do nosso brasileiro Medina.

 

 

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Canto da Raça

“Canto da Raça” foi o único filme sonoro de José Medina. Produzido em 1942, foi concebido como uma ilustração cinematográfica do poema de mesmo nome, de Cassiano Ricardo. No desenrolar do filme, as cenas eram intercaladas com a leitura do poema.

José Medina assim definiu este trabalho: “Foi a primeira fita sonora que fiz, embora nos meus filmes mudos eu fizesse os atores falarem os diálogos”. Para Medina este foi um dos seus melhores filmes. O cineasta planejava fazer outras obras, mas só se tivesse liberdade para trabalhar, sem entraves burocráticos como censura e problemas de exibição (O Estado de São Paulo, 27/05/1973).

Artigo Estadão - 27/05/1973

Infelizmente, esta película não foi exibida nos circuitos comerciais em virtude de proibição da censura ditatorial de Getúlio Vargas, que a condenou por ser “demasiado bairrista”.

Como ilustração, destacamos uma das lindas frases que definem a grandeza e pujança de São Paulo que caracterizaram o poema como bairrista: Amo São Paulo que não é um presente da natureza para os olhos meus, mas um presente do homem para os olhos de Deus!

 

Paulista de São José dos Campos, Cassiano Ricardo nasceu em 1895. Poeta modernista ocupou a cadeira nº 31 da Academia Brasileira de Letras.

 Reproduzimos abaixo o poema, inspiração do filme:

 

Canto da Raça

Cassiano Ricardo

Amo São Paulo em meio à multidão dos seus operários

Um que trabalha no andaime de um gigantesco edifício e agora mesmo atravessou lá em cima uma tábua suspensa tão alta, que a todo instante entra e sai na fumaça da neblina que passa.

Outro que solda n’um brilho em meio do escarcéu quotidiano, cheio de descargas elétricas piscando, parecendo lidar com uma estrela relâmpago que espirra faíscas!

Outro que entrou pela chaminé de uma fábrica e saiu com tinta de fuligem espessa dos pés à cabeça!!!

Outro que está trabalhando entre teares, polias e apitos de máquina; graças a este, que a cidade não tem frio e as crianças se aquecem com lã e agasalho.

Cidade do trabalho, mas também cidade da poesia.

 

Poesia que não é plangente nem vadia, mas a poesia eterna do homem em conflito com a natureza, impondo um ritmo de beleza às coisas brutas através das grandes lutas que são a história de Piratininga, em tempo para enxugar o suor que pinga de sua fronte e com as mãos sujas de terra e de carvão, modelando a paisagem à sua imagem.

Ainda agora o Tietê vai ser seguro pelas pontas, dobra por dobra e esticado no meio feito cobra.

Todos os riachos da serra (vistos de aeroplano) que parecem as pernas enormes de um polvo de prata, foram reunidos à força e enfiados dentro de uma turbina.

Gritam as fábricas bem no ouvido da madrugada, que traz a respiração ofegante de quem vem de longe e que retrata a pressa de quem vive correndo para chegar à hora exata.

E em vez de subir a montanha, de manchar a mão na tinta azul do céu, a gente sobe a um trigésimo andar, colabora na batalha violenta e sonora que é São Paulo, construindo três casas por hora.

E lá de cima espia o panorama da cidade sem fim, que se derrama tão surpreendente que parece uma mentira na redonda amplidão da tarde luminosa rumo ao Jaraguá listado de safira.

 

E a cidade caminha a passos resolutos com pernas pretas de viadutos e, a cada passo, ergue a cabeça cor de rosa de um novo arranha-céu para sondar o horizonte.

E a paisagem caminha para onde a conduz quem baralhou o chão de encruzilhadas, quem amarrou os laços da distância com o amarrilho vermelho das estradas, quem percorreu o continente de ponta a ponta fazendo o chão tremer com o barulho das botas.

Quem comandou a investida geométrica dos cafezais sertão a dentro por bombas e grotas. Essa é a sua poesia feita com sangue, feita com o pão de cada dia.

Amo São Paulo que não tem nada de bonito, porque não tem baía nem paisagem.

Amo São Paulo que não é um presente da natureza para os olhos meus, mas um presente do homem para os olhos de Deus!

 

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Famílias Rossi e Medina

No dia 11 de agosto de 2011, participamos de uma noite de gala, repleta de emoções. Fomos à Cinemateca assistir a V Jornada do Cinema Silencioso. O prédio da Cinemateca é uma interessante construção de tijolinho, antigo matadouro da cidade de São Paulo, na Vila Mariana. Logo na entrada havia uma exposição de fotos de Gilberto Rossi, produtor de filmes juntamente com José Medina. Um primor. A exibição dos filmes Exemplo Regenerador e Fragmentos da Vida foi acompanhada pelo piano de Anna Claudia Agassi, bisneta de Gilberto Rossi. Apresentação impecável da musicista.

Após a exibição dos filmes e de documentários (Rossi Film e Actualidades Rossi), começou a rolar a emoção. Houve o encontro das duas famílias, Rossi e Medina, com seus filhos, netos, bisnetos e tataranetos. Araceli Medina Pasqualin, filha de José Medina, feliz, não cabia em si de tanta alegria e emoção. As famílias Rossi e Medina, orgulhosas e sensibilizadas, já combinaram futuros encontros para resgatarem, juntas, as histórias da dupla.

Depoimento de Araceli: “ Apesar de já ter assistido diversas vezes aos filmes do meu pai, eu me emocionei pela maneira expressiva como foi colocada a música, principalmente a música “Fragmentos da Vida”, que foi composta especialmente para o filme. A atuação da pianista Anna Claudia fez uma grande diferença na apreciação do filme”.

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Dia 24 de julho seria o aniversário do grande poeta modernista Guilherme de Almeida, amigo de José Medina. Atualmente, a Secretaria Estadual de Cultura – SP, mantém uma casa-museu no bairro do Pacaembu onde o poeta vivia. Para aprofundar a pesquisa sobre a obra de Medina, tivemos a grata satisfação de visitar um arquivo muito bem organizado, onde encontramos esta “pérola”, que transcrevemos aqui sobre o lançamento do filme “Fragmentos da Vida”, na coluna Cinematographos, que o poeta mantinha no jornal O Estado de São Paulo.

Neste texto é citada a empresa Medifer. Após o incêndio no laboratório da Rossi Film, Carlos Ferreira e José Medina fundaram a Medifer e foi através dela que produziram “Fragmentos da Vida”, continuando com a fotografia de Gilberto Rossi.

CINEMATOGRAPHOS

“Fragmentos de Vida”, no “Odeon”

Com a sua primeira producção, “Fragmentos de Vida”, film nacional que está sendo exhibido na “Sala Vermelha” do “Odeon”, a Medifer demonstrou saber uma grande coisa, a principal coisa mesmo de que precisa o cinema brasileiro: “Começar”. Começar com films curtos e baratos. Isto é essencial. É essencial economizar pellicula e gente, isto é, tempo e dinheiro. É assim que se começa; mais ainda: é assim que se começa bem. Nada de reconstituições históricas em oito ou dez rôlos, com meia dúzia de heróes, dúzia de villões e grózas de “extras” (heróes caros, villões compromettedores e extras incommodativos)! Apenas aquillo que é “Fragmentos de Vida”: tres personagens (a bem dizer, duas), vivendo um assumpto simples e, pois, interessante, num minimo possivel de tempo e de celluloide; e aqui mesmo nesta época e nesta Cidade, sem perigosissimas excursões historicas e geographicas… E, principalmente, tudo isso executado em oito ou dez dias! São mais ou menos assim os pequenos films que os americanos chamam de “quickies”. E o “quickie” (se quizerem traduzir por “depressinha”,não faz mal…) é a melhor maneira de começar o cinema numa terra como a nossa de poucos, pouquissimos recursos.

Esse é o meu pensamento sincero, como é sincero este “bravo!” inicial que eu daqui mando á “Medifer”.

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Agora, aos valores intrinsecos do film. Dois grandes e melhores valores: a direcção e a intrepretação.

Como director, José Medina é, indiscutivelmente, por emquanto, o nosso unico director de verdade. Pela primeira vez senti, num film nacional, essa “continuity” (também pódem traduzir por “continuidade”, que não atrapalhará muito), essa ligação suave, especie de traço-de-união que das partes varias de um film faz um todo; essa sequencia, esse encandeamento de fórma e de fundo, das figuras e do pensamento, cadenciados, que é o que bem se poderia chamar o “rithmo cinematographico”. Isso, só isso, bastaria para justificar um megaphone nas mãos de José Medina. Mas, elle não quiz parar ahi: esforçou-se tambem, e com exito, accumulando as funcções de director, de “casting director”, de “scenario-writer” e de “supervisor”, por dar originalidade e bom gosto a toda a photographia; por confiar a um “cast” habil e capaz o desempenho; por explorar um argumento breve, interessante, bem cinematographico; e, afinal, por presidir e orientar a todos os detalhes, providenciando por que nada faltasse para dar um “ar legitimo” a todas as coisas.

Quanto aos interpretes: – Não hesito em collocar Alfredo Roussy no primeiro logar. Este artista tem um real sentimento do “humour”, tem uma agradavel desplicencia de attitudes e expressões que – estou certo – hão de fazer delle um artista á parte, uma riqueza que o pauperrimo cinema nacional não teve ainda. Carlos Ferreira não tem bastante occasião, neste film rapido e quase-comico, de revelar-se todo; adivinham-se entretanto, em algumas sequencias (a do jantar no restaurante, por exemplo) as suas possibilidades, que são muitas e excellentes.

Aurea Aremar é bem “photogenica” – o que já não é pouco; e sente-se que apenas se limitou a obedecer ao seu bom director – o que já é muito…

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A photographia, que é de Gilberto Rossi, tem nitidez e limpeza. Principalmente nos exteriores, ella se revela desembaraçada, movel e simples

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